A (ir)responsabilidade dos professores

A (ir)responsabilidade dos professores
Mauro Alves da Silva

No artigo “Ensinado impunidade” (jornal O Estado de São Paulo, 31/12/2009), o professor Luís Fernando de Lima Júnior culpa a “progressão continuada” pelo aumento da violência e da indisciplina dos alunos nas escolas pública de SP. Ele fala da responsabilidade dos alunos, das famílias, do “sistema”, e do Estado. Mas não fala da (ir)responsabilidade dos professores, os quais têm, sim, a autonomia para reprovar alunos que não tenham reais condições para prosseguir em um nível mais elevado do ensino.

No documentário “Pro Dia nascer Feliz” (2006), uma professora confessa promover os alunos para não ter de ficar preenchendo relatórios de justificativa da reprovação.

Apresentamos contestações aos principais pontos do artigo do professor:
1) O aumento da violência – ou da percepção da violência – é geral. Mas a violência infanto-juvenil é uma parte muito pequena da violência geral. No passado, os conflitos escolares eram resolvidos com as sucessivas suspensões, reprovações ou expulsões de alunos. A partir da Constituição Federal de 1988, as crianças tiveram o direito de acesso e permanência na escola pública. Os conflitos escolares devem ser resolvidos prioritariamente nas escolas. A progressão continuada evidenciou o que antes era camuflado.

2) No passado havia várias formas de exclusão: “acesso à escola” dependia de “vestibulinhos e prova de admissão” e era comum a reprovação pura e simples dos alunos. Neste modelo – de exclusão dos alunos com “menores rendimentos” – não temos como avaliar o desempenho dos professores e nem da escola.

3) Como falar em “aprender sozinho” em um ambiente escolar que em 20% das aulas não são dadas, faltam bibliotecas, os laboratórios de informática não funcionam? Nem mesmo são dadas as aulas de reposição. Neste ambiente de “enganação”, não é surpresa que as más direções escolares – com o aval de maus professores – tenham inventado a “aprovação automática”. Uma verdadeira “progressão continuada” exige uma “avaliação continuada”, “recuperação paralela” e professores comprometidos com o ensino/aprendizagem e o bom desempenho de seus alunos. Mas este comprometimento integral dos professores, vinculando-se ao desempenho dos alunos, parece inadmissível para grande parte dos professores que apenas estão preocupados em receber o contra-cheque no final do mês.

4) A principal função do professor é zelar pelo aprendizado da criança. Um professor bem formado tem todas as condições de motivar uma criança para o estudo. Mas é óbvio que nenhuma infraestrutura irá substituir uma vocação ou o gosto de trabalhar com crianças.

5) As escolas matriculam 40, 50 ou mais alunos no inicio do ano. Mas já nos primeiros meses existe uma evasão (abandono escolar) na ordem de 20%. Toda falta deve ser justificada. Em SP, a lei obriga 1.000 horas em 200 dias letivos. Mas muitas escolas preferem ignorar as faltas dos alunos: quanto menos alunos, melhor. Só cobram a “freqüência mínima” (75%), pois a reprovação “por faltas” gera ação administrativa e judicial para apurar responsabilidades.

6) Quem não sabe avaliar aplica provas. O problema não é exigir trabalhos para compensar as faltas dos alunos. O problema é o professor não avaliar estes trabalhos. Não dá para acusar os alunos de fraude (copiar trabalhos da internet) se os professores não avaliam estes trabalhos.

7) Realmente este ambiente pedagógico é desestimulante. Mas os únicos que ganham com isso são os funcionários, os professores e as direções escolares, pois são pagos “religiosamente”. Grande parte destes profissionais está boicotando as avaliações de desempenho profissional e desempenho das escolas. Há vários casos de alunos reprovados por baixo desempenho. Mas não conhecemos nenhum caso em que um professor tenha sido demitido por baixo desempenho.

8) A cartilha Normas Gerais de Conduta Escolar é um “código penal para alunos”, descrevendo 30 condutas proibidas ao estudante e propondo ilegais suspensões e até expulsões. Mas não diz nada sobre as punições contra funcionários, professores e direção que são omissos, desidiosos ou abusam dos alunos, dos pais e da comunidade.

9) As boas escolas particulares criam várias condições para o ensino/aprendizagem do aluno. Muitas utilizam o instituto da reprovação (ou da dependência). Mas também avaliam os seus professores, sendo comum a demissão dos que não atingem desempenho satisfatório. A escola particular exclui pela renda, mas isto é inadmissível no sistema público de ensino. Temos de educar todas as crianças, sem distinção. O desemprego juvenil é fenômeno mundial. O desafio é melhorar a formação, e não criar um funil (reprovação) para dizer que aumentou o nível educacional dos alunos formados.

10) Registramos as boas iniciativas do Estado de SP: instituiu o bônus por desempenho e as provas para os professores que querem progredir na carreira. Mas ainda falta criar um mecanismo para demitir os maus professores. Escola com baixo desempenho merece intervenção, a exemplo da Escola Estadual Maria Aparecida Franca Barbosa de Araújo (Caçapava-SP), que tirou nota 1,98 (2007) e nota menor em 2008 (1,58).

Conclusão: não dá mais para aceitar o papel de vitimização dos professores. Eles não são santos nem abnegados. São profissionais e devem ser tratados como tais. Que cada professor assuma sua responsabilidade no ensino/aprendizagem dos alunos. Enquanto que nós, alunos, pais e comunidade devemos apoiar e premiar os bons professores, distinguindo-os dos maus professores, os quais devem ser reciclados ou demitidos.

Mauro Alves da Silva é coordenador do Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública, autor do “S.O.S. Manual Prático de Sobrevivência na Escola Pública” e da cartilha “Como Educar meu Professor”.
https://movimentocoep.wordpress.com/2010/01/06/a-irresponsabilidade-dos-professores/

7 Respostas para “A (ir)responsabilidade dos professores

  1. Conclamado em outro site a colaborar com a tarefa de melhorar o ensino, venho tecer alguns comentários sobre o que li neste post e no artigo de jornal escrito pelo professor Luís Fernando de Lima Júnior. Entretanto sinto-me como professor e pesquisador que sou, constrangido em comentar tanto as opiniões do professor Luís Fernando como as contraposições feitas neste site, posto que tanto uma como a outra são baseadas mais em impressões pessoais do que dados metodologicamente obtidos.

    Salvo esteja enganado, e apareça em algum ponto à origem das opiniões, raciocinar sobre opiniões pessoais é desgastante e perigoso, comentando desta forma entra-se num um terreno movediço e obscuro, podendo-se descambar para discussões intermináveis baseadas em opiniões pessoais e não em dados.

    O porquê do meu comentário, já que me abstenho de comentar até aqui, é que sugiro a quem aqui escreve que tomem mais cuidado na emissão de opiniões, não que estas não devam ser feitas, mas quando feitas sem uma base metodológica (mesmo corretas) ficam meras opiniões, não evoluindo o assunto.

    • Este site não foi criado para desenvolver “teses de mestrado ou doutorado”.
      Muitos dos dados apresentados são amplamente conhecidos.
      Quem quiser contestar pode simplesmente apresentar dados de pesquisa ou mera opinião. Os leitores é que irão avaliar se a resposta foi satisfatória ou não.
      De qualquer forma, entendo que o “ilustre professor” não conseguiu demonstrar a sua tese de que a progressão continuada estaria ensinado a impunidade aos alunos.

      • Não se trata de realizar teses de mestrado, Mauro, mas somente discutir com base em análises sérias, usando a inteligência, não a demagogia e o senso-comum (senso-comum é muito fácil, não exige preparo nem raciocínio, é a ferramenta predileta de quem nãos abe debater).

      • Vitor,

        Nós apresentamos críticas pontuias em relação ao artigo do professor.
        Vamos debater sobre questões pontuias, e não genéricas.
        Apresente os seus argumentos ou contra-argumentos.

      • MAuro, leia esse meu artigo e vamos debater.

        ESTÍMULO AO ERRO
        Por vitor souza Publicado 24/09/2009
        INOCENTAR O CULPADO É CONDENAR OS INOCENTES
        A cena é a seguinte: um aluno de 14 anos picha as paredes de uma escola que acabou de ser pintada em um sistema de mutirão, do qual participaram pais e alunos de uma comunidade no município de Viamão (Rio Grande do Sul). Durante oito meses dezenas de pessoas se mobilizaram para arrecadar fundos e, em um feriado, todos trabalharam para pintar a escola. Mas, em apenas um dia, um jovem estudante estraga todo o trabalho realizado com afinco e dedicação. A vice-diretora descobre quem foi o autor da façanha e o coloca para consertar o próprio estrago. Um outro aluno grava a situação e começa a confusão: a mãe do aluno infrator acusa a vice-diretora de humilhar seu filho e de havê-lo injustiçado.

        Tão logo a notícia se espalha, começa a discussão. Surgem algumas pessoas que, alheias ao bom senso, usam sua língua ferina para condenar a atitude da vice-diretora e defender o “pobre” aluno, sem se prestar a fazer uma análise crítica do fato. Entretanto, parece que nesse caso prevaleceu a lógica e quase 99% das pessoas que opinaram sobre o assunto apoiaram a medida tomada, condenando o ato do aluno e de sua mãe, que quer tomar medidas contra a escola.

        Entretanto, o que está por trás de tudo isso é algo mais grave. Ao defender o “pobre” aluno nessa situação, as pessoas que assim o fazem estão contribuindo para estimular o desenvolvimento de um sentimento perigoso e que aparece vivo em muitos jovens: a sensação de que o mundo está aos seus pés, a ideia segundo a qual as demais pessoas não têm importância e o seu trabalho pode e deve ser destruído e desrespeitado sem que haja maiores consequências. Agindo assim, essas pessoas estão contribuindo para a formação do bandido de amanhã.

        Ao tomar conhecimento de que existem pessoas que condenam veementemente a correção aplicada pela escola e ainda colocam o aluno infrator na condição de vítima, o jovem em questão tem à sua disposição elementos suficientes para achar que o mundo é seu, e que suas atitudes, por mais danosas que sejam, serão apoiadas por pessoas que condenarão a parte afetada. É como se a culpa fosse da escola, e não do jovem que estragou o trabalho realizado por uma multidão de pessoas.

        Em uma dessas defesas, certa pessoa chegou a dizer que o jovem aluno estava tapando o rosto com o boné para, pobrezinho, esconder o “rubor da face” diante da injustiça a que estava sendo submetido. E como ficaram as dezenas de pessoas que viram seu trabalho e esforço ser estragado de tal maneira? Devemos pensar não no “rubor das faces” dessas pessoas, mas sim na tristeza de seus corações ao verem a cena.

        Infelizmente, ainda existe essa inversão de valores. Pessoas que, na ânsia de condenar a escola sem analisar criticamente os fatos, contribuem para estimular o desrespeito, a delinquência. Tudo se resolveria se o jovem aprendesse que o mundo não está à sua disposição. E isso não se aprende só na escola. Aliás, a escola pouco pode fazer nesse sentido se não houver colaboração dos pais e da sociedade. O aluno passa pouco tempo do seu dia na escola, e nesse tempo ele precisa aprender o conteúdo didático que é exigido para sua vida. A maior parte do dia ele passa em companhia dos pais, de amigos, da Internet, de pessoas desconhecidas…. pessoas que, na situação aqui discutida, estimulam as atitudes negativas que resultam em atos de vandalismo. De nada adianta a escola ensinar que é errado o que o jovem fez se fora dos muros escolares ele encontrar em sua mãe e em outras pessoas o apoio para seus atos errôneos.

  2. Uma questão pontual. Por que parou a discussão? O Mauro não vai defender o pobre aluno que pichou a escola?

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