Reality show na escola pública?

A jornalista Vanessa Cabral matriculou seus dois filhos (10 e 8 anos) na escola pública e, além disso, decidiu escrever um diário eletrônico (blog) onde acompanha o dia-a-dia de seus filhos na escola estadual EE Brigadeiro Faria Lima (Perdizes, região central da capital paulista).
Esperamos que a grande imprensa divulgue as notícias com espírito crítico, e não como mais um “reality show” onde a realidade é falsificada para entreter leitores, ouvintes e telespectadores.
Na primeira notícia divulgada pelo Gilberto Dimenstein (“Mãe digital”, Folha de São Paulo, 21/04/2010), já temos indícios de que vão fantasiar a realidade da escola pública. Ele fala nos preços exorbitantes das escolas particulares (de R$ 900 a R$ 1.500) e crítica os “métodos pedagógicos”, ignorando completamente que a principal (e grave) diferença entre escola particular e pública é a falta de professores, o que acarreta principalmente a impossibilidade de aplicar qualquer proposta pedagógica consistente na escola pública.
Pelos primeiros registros no blog “Escola pública não é de graça” (http://escolapublica.zip.net/) dá para constatar que a mãe-jornalista ainda está iludida com a escola pública… iludida com a atenção dispensada pelo diretor… iludida com os professores… a mãe-jornalista já comprou o discurso dos baixos-salários das professoras… até fez questão de registrar que o pior da escola pública é ter de falar com outras mães [da escola pública]…

Um pouco de realidade
Uma frase que chamou nossa atenção: “[a mãe] Resolveu, então, participar do conselho da escola para poder influir na gestão” (sic).
Como assim “resolveu”? Como foi a eleição obrigatória por segmento? Como foi a assembleia de mães e pais? Ou foi tudo como sempre: a direção escolar indicando todos nomes para o conselho de escola?
A mãe-jornalista recebeu cópia do regimento interno da escola?
A mãe-jornalista já recebeu o “boleto bancário” para pagar a APM?
A mãe-jornalista já comprou o uniforme dos filhos?
A mãe-jornalista participou da eleição da APM?
A mãe-jornalista já viu a cópia dos balancetes da APM?
A mãe-jornalista sabe que as escola públicas usam a “Cartilha dos Corvos” para suspender e expulsar as crianças sem lhes reconhecer o direito à ampla defesa?

Memória: Diário Escolar
Tanto o NAPA (Núcleo de Apoio a Pais e Alunos) quanto o Movimento COEP (Comunidade de Olho na Escola Pública) já chegaram a propor o “Diário Escolar”, onde um aluno de cada escola pública escreveria sobre o dia-a-dia na sua escola. Esta idéia foi rapidamente abandonada, pois as primeiras experiências comprovaram as nossas mais terríveis preocupações: a escola promovia “caça-às-bruxas” para saber quem é que estava passando as informações… havia muita perseguição contra alunos, mães, pais e até mesmo contra “funcionários suspeitos”.

Ao que vai chegar… – versão 2010
Várias entidades e movimentos de mães e pais de alunos foram criados por famílias da classe média que tiveram de colocar seus filhos nas escolas públicas…
Uma das mais importantes constatações foi a farsa de que existe cerca de 300 escolas de excelência na rede pública de SP… Na verdade, a regra é que estas escolas sejam excludentes… elas pré-selecionam os alunos por critérios sócio-econômicos… quem pode “pagar” taxas – e não der “problemas” – fica… os outros são “convidados” a se transferirem…
Vejam algumas das “escolas de excelência” em que mães e pais constataram “na pele” a perseguição e ameaças contra seus filhos:
– Escola Municipal Theodomiro Dias (Butantã);
– Escola Estadual Ennio Voss (Santo Amaro);
– Escola Municipal Cacilda Becker (Jabaquara)
– Escola Estadual Zuleika de Barros (Centro);
– Escola Municipal Jean Mermoz (Saúde);
– Escola Estadual Dr. Edmundo de Carvalho (Lapa) – antigo Experimental da Lapa;
– EE Antonio Alves Cruz (Perdizes);
– EE Rui Bloen (Mirandópolis);
– EE Brasílio Machado (Vila Mariana);
– E. E. PROF. VICTOR OLIVA; etc…
(Obs.: algumas destas escolas foram denunciadas por maltratar até mesmo alunos deficientes físicos ou mentais).

Quem fiscaliza as escolas públicas?
A mãe-jornalista logo logo vai constatar que ninguém fiscaliza a escola pública… Quando ela tiver um problema real, seja na área pedagógica, seja na área “disciplinar”, a mãe-jornalista verá que as supervisões de ensino (Diretorias de Ensino) atuam em um verdadeiro faz-de-conta: enquanto as escolas “fingem que ensinam”, o governo finge que fiscaliza… Não divulgam o nome do diretor das escolas… não divulgam a relação dos funcionários e professores de cada escola (nem seus horários de trabalho)… não divulgam o número de alunos por série nas escolas (isto encobre as fraudes no Idesp)… não divulgam os relatórios sobre denuncias contra funcionários, professores e direção que praticam violências contra alunos, mães, pais e comunidade…
A Ouvidoria da Educação é formada pela própria corporação de professores… só acredita na Ouvidoria da Educação quem sonha acordado com a Alice no País das Maravilhas…

Esperamos que nada de ruim aconteça com estas crianças… Mas já tem gente apostando que a mãe-jornalista não aguentará 6 meses de martírio nesta escola pública.

São Paulo, 25/04/2010
Mauro Alves da Silva
Autor do manual “S.O.S. Aluno – Manual Prático de Sobrevivência na Escola Pública” e da cartilha “Como Educar Meu Professor em 10 Lições”

Leia também:
Ao que vai chegar (Movimento COEP, 06/01/2004)

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2 Respostas para “Reality show na escola pública?

  1. Vitor,

    O seu texto não tem relação com o artigo publicado.
    Ataques pessoais não serão admitidos.

  2. Desculpe, mas voc~es cometem ataques pessoais constantemente….

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