A linguagem da dor

Publicado por Giulia Pierro no blog EducaFórum:

29 Maio 2010

A linguagem da dor

Minha amiga Cremilda fala a linguagem da dor. Essa linguagem não é agradável, polida nem politicamente correta. Ela é autêntica. E hoje a Cremilda deu um depoimento pesado e sentido no programa Assembléia Popular. Falou de um assunto que só ela poderia tratar com tanta clareza e perspicácia.

Nem sempre a Cremilda fala a linguagem da dor. Às vezes ela se sai com tiradas irônicas que acabam se tornando referência no pequeno mundo que se atreve a criticar essa instituição sagrada que se chama escola. São dela, por exemplo, as expressões

– “Surdoria da educação” (em contraponto a “ouvidoria da educação”),

-“Na educação pública redescobriu-se a lei da gravidade: em vez de cair, o fruto podre sobe” (mostrando a impunidade que impede a responsabilização dos maus profissionais, muitas vezes até promovidos, como o professor que promoveu o bullying contra um aluno, chamando-o de “bicha”e passando a coordenador “pedagógico” em outra escola),

– ou a sensacional expressão “Bonitinho, mas ordinário”, para descrever o ex-secretário da educação paulista Gabriel Chalita, que conseguiu enganar toda a sociedade com sua hipócrita “pedagogia do amor”, enquanto as escolas expulsavam alunos a torto e a direito, uma moda que desde então se alastra pelo Brasil inteiro.

Mas hoje a Cremilda falou a linguagem da dor: a dor de quem sente na pele a discriminação e o descaso com que são tratados nossos filhos, alunos da rede pública de ensino.

Quem tem clareza de pensamento e consciência social sabe que existem no Brasil dois mundos, como diz sinceramente uma adolescente rica no filme “Pro dia nascer feliz”. Hoje li inclusive, no blog da Rosely Sayão – uma das poucas vozes corajosas na discussão da educação – o comentário de uma professora dizendo que faz questão de dar aula ao mesmo tempo numa escola de elite e na rede pública, pelo prazer de trabalhar em dois mundos tão diferentes. Então são dois mundos diferentes. Ponto pacífico.

Mas a sociedade brasileira enfia a cabeça na areia e vive no faz de conta de que tudo está bem, que o país é uma das “potências econômicas do mundo”, além de uma “democracia consolidada” na América Latina, campeão no futebol etc. etc. Só que a distância entre esses dois mundos cria uma elite burra e um povo ignorante…

A indignação da Cremilda no programa de hoje se refere ao trabalho de Ongs de elite, como o Itaú Social e o instituto Fernand Braudel, que caíram direitinho na conversa dos sindicatos da educação, empenhados em responsabilizar a família pelo fracasso da escola. Trata-se de uma campanha amplamente apoiada pela mídia nacional, que os sindicatos da classe travam desde que sentiram a ameaça da responsabilização dos profissionais da educação por sua incompetência ou desmandos. Essa ameaça é bastante remota, pois os governos têm se dobrado às reivindicações injustas dos sindicatos, para que os professores não sejam avaliados, para que não haja aumentos de salário por mérito, para que o “direito às faltas” continue indefinidamente etc. etc. Mesmo assim, os sindicatos se valem de suas poderosas assessorias de imprensa para tentar convencer a população de que o fracasso da escola é culpa do aluno e da família, que é “omissa” ou “irresponsável”. O aluno da rede pública, principalmente o adolescente, tem hoje na mídia uma imagem tão negativa que aceita-se tranquilamente a invasão de escolas por PMs em todo o Brasil, principalmente no estado do Paraná. Veja também aqui.

A última do Itaú Social & Inst. Fernand Braudel foi a instituição de uma figura sombria na rede pública de ensino: o pai de aluno que visita a família de outro aluno que falta à escola, para convencê-la da “importância” de o filho voltar às aulas. Foi essa a argumentação da Cremilda no programa de hoje: ela comparou essa figura ao Capitão do Mato, aquele que era incumbido de capturar os escravos antes da libertação. Uma comparação forte, mas que faz sentido, pois geralmente o aluno evade da escola por discriminação, perseguição, dificuldade de acompanhar as aulas ou falta de recursos. E sabemos que, neste país onde só os pobres vão para a cadeia, os pais podem ser punidos por manterem seus filhos em casa.

Então, em vez de a escola se preocupar com as reais causas que afastam o aluno – aulas vagas, aulas maçantes, professores que não explicam ou se recusam a repetir a explicação, dislexia tratada como burrice ou preguiça, preconceito contra alunos repetentes, falta de material escolar ou de vestuário, falta de transporte quando é negada vaga próxima à residência do aluno e mil outros motivos – envia-se o pai “presente” de um “bom aluno” para “convencer” a família “ausente” de um “mau aluno” a mandá-lo de volta para a escola.

Uma medida como essa só cria conflitos dentro da comunidade escolar, coloca pais de alunos contra outros pais de alunos, além de não ir às causas da evasão escolar e não resolver o problema do aluno.

Só a linguagem da dor pode traduzir o absurdo de uma medida como essa, criada por pessoas cujos filhos estudam na rede particular e que desconhecem a realidade da pública.

Eu mesma, há alguns anos, estive numa reunião do Instituto Fernand Braudel, repleta de profissionais da educação, e tive minha palavra caçada após perguntar ao plenário – lotado – quantas pessoas tinham seus filhos estudando na rede pública. Apenas uma mãe levantou a mão… Para bom entendedor, meia palavra basta.

Parabéns à Cremilda por sua lucidez e coragem, ao levantar esse assunto tabu com sua linguagem da dor. Uma linguagem que poderia sensibilizar a sociedade, se… houvesse sensibilidade para tal.

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