A psicanálise da ignorância

O jornal Folha de São Paulo publicou o pior artigo sobre a “progressão continuada” que se tem notícia.
No artigo “Falta de Treino” (Folha de São Paulo, Seção Equilíbrio de 13/07/2010) a psicanalista Anna Veronica Mautner defende a reprovação escolar como forma de “treinar para vencer as dificuldades impostas pela vida” (sic), dando como exemplo o suposto descontrole emocional dos jogadores brasileiros na Copa do Mundo após tomarem o primeiro gol da seleção holandesa… os jogadores brasileiros não estariam preparados para superar a adversidade de tomar o primeiro gol do outro time… e a culpa seria de uma tal “progressão automática” (sic)…
Além de confundir “educação” com “treinamento”, a psicanalista ignora completamente que um resultado de 2×1 é perfeitamente normal em uma partida de futebol entre Brasil e Holanda, dado o nível equilibrado das duas equipes…
Pior que isso é a ignorância da psicanalista sobre a diferença entre “progressão continuada” e “aprovação automática”.
A “Progressão Continuada” exige um comprometimento total do professor com o ensino/aprendizagem do aluno. Exige avaliação continuada e recuperação paralela para garantir que o aluno supere suas dificuldades.
A “aprovação automática” foi criada por maus professores que não queriam se comprometer com os alunos, não queriam fazer a avaliação continuada; e não queriam preencher os relatórios que “justificariam” a reprovação, pois teriam de confessar que não ofereceram reais condições para o sucesso do aluno.
Não dá para exigir que o aluno repita o ano – e reveja todas as matérias – se ele teve um desempenho insatisfatório apenas em matemática, por exemplo. A progressão continuada é um sistema para evitar a reprovação burra.

A tese da psicanalista Anna Veronica Mautner para a perda da Copa do Mundo é tão ruim ou pior do que a dos milhares de “experts do futebol”, pois ela também ignora que um dos nossos principais jogadores, o Luis Fabiano, foi reprovado 4 vezes no ensino fundamental… não será surpresa se encontrarmos outros jogadores que também foram reprovados nas escolas. Note-se que o sistema de progressão continuada é praticado em uma minoria de escolas brasileiras.
Uma verdadeira psicanálise “futebolística” sobre a educação brasileira deveria ser completa, inclusive destacando que os técnicos de futebol assumem a responsabilidade pelo fracasso de seus times e freqüentemente é demitida toda equipe técnica quando o time não atinge as metas propostas. Já imaginaram a revolução educacional brasileira que aconteceria se fossem demitidas as direções escolares cujas escolas não atingissem o desempenho mínimo aceitável?

Esperamos que as próximas análises da psicanalista Anna Veronica Mautner sejam mais profundas do que um papo de bar após uma derrota de um time de futebol.

São Paulo, 14/07/2010
Mauro Alves da Silva
Autor da cartilha COMO EDUCAR MEU PROFESSOR EM 10 LIÇÕES.

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Uma resposta para “A psicanálise da ignorância

  1. Folha de São Paulo

    São Paulo, terça-feira, 13 de julho de 2010

    FALTA DE TREINO

    ANNA VERONICA MAUTNER

    amautner@uol.com.br

    Essa ideologia segundo a qual não deve existir frustração nem reprovação não ajuda ninguém a ganhar

    TRISTE. Fiquei com a boca amarga como quase todos quando o Brasil perdeu. O fato me levou a questionar uma certa ideologia educacional.
    Será que ela tem a ver ou não com a derrota -ou melhor, com a dificuldade de reagir positivamente ao primeiro gol contra nós?
    Dizem locutores, técnicos e sabichões que causas emocionais nos levaram à desorganização ocorrida no resto do jogo, depois do tal primeiro gol dos outros.
    Resumindo o que escutei, concluí que nós nos atribuímos uma falta de treino para atuar em condições de adversidade: a frustração nos impediria de realizar ação ordenada com vistas ao objetivo.
    Onde erramos pois, nós, educadores, pais e mestres, na educação dos nossos jovens compatriotas?
    Em casa, cada um de nós é educado de acordo com a família. Em uma sociedade livre, não se pode intervir na complacência ou na excessiva tolerância. Fica por conta da escola apoiar, treinar e não apenas afagar para habilitar a continuidade do esforço e eficiência, mesmo em condições desagradáveis.
    A escola pode e deve impor limites de nota mínima e máxima; pode advertir, aprovar e reprovar. Se um aluno tem dificuldade num campo qualquer de conhecimento, ele deve esforçar-se mais nessa matéria, pedindo ajuda. Mesmo sabendo que pode não brilhar, não vir a ser o melhor, tem que desempenhar um certo tanto.
    A ideia de promoção automática nos indica que a escola está abdicando da função de treinar para vencer as dificuldades impostas pela vida, incentivando a ultrapassar os obstáculos próprios ao cotidiano de todos nós.
    A vida de ninguém é um mar de rosas. Caberia à família e com certeza à escola treinar o jovem para suportar acasos e tropeções e, apesar deles, terminar as tarefas.
    Ao final do jogo da Copa, rostos desolados aceitavam como inevitável desanimar diante do primeiro gol do outro time. O jogo é apenas um modelo do que venho percebendo ao meu redor.
    Talvez passe por essa dificuldade de superar os tropeções o que aconteceu lá na África do Sul, em 2 de julho de 2010, segundo os experts.
    O primeiro gol do outro time acontece. E temos que continuar batalhando.
    Dificuldade em matemática acontece. E cabe ao aluno estudar mais e não desistir. A ideologia que está por trás da promoção automática é que frustração não deve existir, reprovação não pode existir. Se assim for, não chegaremos ao hexa.

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