Para que o programa “Turma 1901” não se transforme na “Reportagem 171”…

Em 30/01//2009, “Desafiamos a TV Globo a mostrar a realidade diária de uma escola pública de verdade, onde faltam professores, onde os professores faltam de forma exagerada, onde crianças pequenas (9 anos ou menos) são xingadas, humilhadas e até agredidas fisicamente ou sexualmente por seus professores”. (leia aqui).

Com o quadro “Turma 1901” (Programa Fantástico, 21/11/2010), a TV Globo parece que aceitou somente uma parte do nosso desafio. Ao invés de mostrar o cotidiano escolar, inclusive com crianças pequenas, o programa Fantástico prioriza a vida dos alunos fora da escola, alunos da 9ª série do ensino fundamental da Escola Municipal General Euclydes de Figueiredo (Rio de Janeiro, RJ).

Uma avaliação preliminar sobre as reportagens já apresentadas:
1) A “turma” é de apenas 30 alunos, contrariando o mito de “salas super lotadas”;
2) Só “filmam” a aula de “lingua portuguesa”… não dá para saber qual o “comportamente” de outros professores e nem sobre as famigerdas “aulas-vagas”;
3) A apresentadora Patricia Poeta trata a professora como “abnegada” (sic)… Será que a “ex-moça-do-tempo” sabe o significado da palavra “abnegada”?
4) A professora culpa os próprios alunos pela falta de aprendizado…
5) Os apresentadores Zeca Camargo e Patricia Poeta também culpam os próprios alunos e suas famílias pelo baixo desempenho dos estudantes…
6) O aluno Rodrigo Muniz é o mais extrovertido da turma. Ele também é o mais zombado pela professora, pela diretora e até mesmo pelos apresentadores Patricia Poeta e Zeca Camargo;
7) O aluno Rodrigo Muniz, junto com o aluno Patrick Anderson, ganharam o torneio estudantil de Tênis de Mesa… isso sem a escola contar com uma mesa oficial… a escola também levou 2 anos para reformar a quadra da escola… será que a reforma saiu em 2010 porque a TV Globo estava filmando?
8) O aluno Patrick Anderson recebeu uma oferta de “bolsa de estudos” em uma escola particular… seria 20% da mensalidade… mas a família não pode pagar nem isso…
Observação: isto é uma hipocrisia das escolas particulares. Elas recebem isenção de impostos, sendo obrigadas a uma contra-partida social: oferecer 20% de bolsas de estudos para alunos de famílias carentes. Mas, ao invés disso, é muito comum estas escolas particulares oferecerem um “desconto geral” para todos os alunos, independentemente da situação financeira de cada aluno. Por que a escola particular não ofereceu uma “bolsa integral”, incluindo vale transporte e vale-alimentação para o aluno em questão?
9) Embora o aluno Rodrigo Muniz tenha conquistado a medalha de ouro no Tênis de Mesa, seus professores só falam em reprová-lo… em outros países, um esportista “de ouro” teria toda a escola a apoiá-lo para que superasse suas dificuldades de aprendizado formal.
10) Seria muito interessante o programa Fantástico mostrar uma aula de história, uma aula sobre o patrono desta escola municipal… Será que apresentariam o General Euclides Figueiredo simplemente como “o pai do ex-presidente João Batista Figueiredo”? Ou falariam sobre o comandante da Revolução Constitucionalista de 1932, que combateu a ditadura de Getúlio Vargas? Falariam da legitimidade da revolta e até o uso da força e da violência contra ditaduras e tiranos de toda ordem? Duvidamos… Os alunos têm direito à educação… está na Constituição Federal… mas as escolas públicas não passam de enganação… não passam de meros cabidões de empregos…

Educação integral em tempo integral
O programa Fantástico anunciou que vai mostrar a visita da aluna Camila Catalão ao Chile, ao Observatório ###.
Esperamos que os reporteres aproveitem e mostrem algumas particularidades da educação no Chile, onde mais de 50% dos alunos estudam em tempo integral… No Brasil este índice é da ordem de apenas 5%!
Esperamos também que a TV Globo e o programa Fantástico mostrem o que realmente acontece “dentro dos muros das escolas”; e não fiquem apenas divulgando o mito da professorinha-santa-abnegada versus o aluno-capeta.
Uma verdadeira revolução educacional deve contar com a ativa participação de todos os segmentos envolvidos: alunos, mães, pais, comunidade, funcionários, direção escolar, professores, imprensa etc.
A mera culpabilização dos alunos e de suas famílias não passa de fraude para manter o sistema falido das escolas feudais brasileireas. Reportagens deste naipe não passam de “Reportagens 171”, na linguagem popular.

São Paulo, 21 de dezembro de 2010.
Mauro Alves da Silva
Coordenador do Movimento COEP
Comunidade de Olho na Escola Pública
http://movimentocoep.ning.com/

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