Vejam um bom artigo sobre educação, da Giulia Pierro – EducaFórum.

A escola tabu nº 25 – A sociedade veste a carapuça

Já falamos bastante aqui da revista Nova Escola, essa publicação asséptica mas, ainda assim, a melhor em seu gênero, considerando que não existe no país jornalismo crítico e interessado em abrir a caixa preta que é a educação brasileira, principalmente a pública.

Este mês, ‘sem querer-querendo’, a Nova Escola mostra a visão da educação por parte da sociedade brasileira, através de alguns mitos. Vamos aqui comentar aqueles que sempre criticamos aqui, por serem causadores de imensos prejuízos para os alunos e do atraso que mantém o país na ignorância: 

  • Criança pobre não aprende – É muito cômodo, para as classes A e B, difundir esse mito, pois quem gere a educação pública são pessoas dessas classes, enquanto seus próprios filhos estudam na rede particular. Assim, esses gestores se eximem da própria responsabilidade e podem deixar o barco afundar. Ao mesmo tempo, com o sucatamento da rede pública, seus filhos terão menos concorrência na hora de disputar uma vaga na universidade.
  • Muitas crianças não aprendem porque vêm de famílias desestruturadas – Esse mito é um dos grandes causadores de expulsão e evasão de alunos, alvo de intermináveis fofocas nas salas dos professores e principalmente nas reuniões de Conselho de Escola, onde se expõem abertamente as “falhas” das famílias dos alunos e se define o futuro de crianças e adolescentes, empurrando-os para a marginalidade. Como se as famílias dos gestores e demais profissionais da educação fossem um mar de rosas…
  • Educação se aprende em casa e cabe à escola apenas ensinar conteúdos – Este mito, repetido exaustivamente por “educadores” e gestores, além de papagueado por toda a mídia, mostra a estreiteza da mente desses profissionais, inclusive dos jornalistas que o divulgam. Com essa desculpa, a escola se permite deseducar os filhos “dos outros”, dando-lhes, através de seus profissionais, os péssimos exemplos do descaso, do absenteísmo, da falta de pontualidade, do desprezo pelo trabalho e pela profissão, do uso de um vocabulário chulo e muitas vezes ofensivo.
  • A função mais importante da escola é formar cidadãos – O aprendizado da cidadania se dá pelo exemplo e não através de “lições”. O aluno que se vê privado do direito de ter uma vaga na escola próxima, de ter aulas todos os dias (e aulas de qualidade!), de ser respeitado por seus professores e demais profissionais da escola, já aprendeu que, no Brasil, cidadania é para poucos. Além disso, enquanto a escola finge “formar cidadãos”, ela deixa de se responsabilizar pelo ensino.
  • O papel da escola é elevar a autoestima dos alunos – Nossos “educadores” costumam utilizar o antigo hábito de elogiar os “bons alunos” e depreciar as “laranjas podres”, acreditando (acreditando?…) que assim incentivam os primeiros a se superarem e os segundos a imitarem os primeiros. Esse é talvez o mito mais jurássico e cretino da nossa escola. Irmão desse mito é o da “Pedagogia do amor”, lançado pelo ex-secretário, hoje deputado, Gabriel Chalita. Enganando a sociedade, na suposição de que os alunos de sua rede de ensino estavam sendo tratados com um mínimos de respeito (ou seria “amor”?…), sua gestão foi a campeã da expulsão de alunos e do fechamento de escolas.
  • A cópia e a repetição são boas estratégias de ensino – A escola brasileira (não somente a pública!) é tão, mas tão atrasada, que quase não se fala em compreensão, discussão, reflexão. Cabe ao aluno calar a boca, copiar da lousa e decorar. O pior é quando o professor se nega a explicar e a repetir, muitas vezes apagando a lousa antes que o aluno tenha tido tempo de copiar.
  • A repetência melhora o desempenho escolar – Estudos já provaram exaustivamente que o aluno não aprende mais, se repetir o mesmo ano com as mesmas aulas de péssima qualidade, baseadas na cópia e na decoreba. No entanto, a repetência é cômoda para os maus profissionais, que largam o aluno para outro colega no ano seguinte, eximindo-se de sua responsabilidade. Esse mito, muito bem divulgado pelas assessorias de imprensa dos ricos sindicatos da “educação” e papagueado pela mídia, continua assim emplacando na sociedade brasileira.
  • Sem reprovação, os alunos perdem o respeito pelo professor – Respeito se conquista, não se impõe. Os alunos tendem a não respeitar o professor que também não os respeita, tratando-os como números. Se o professor não faz a avaliação contínua do aluno e não cuida de sua recuperação, espera o quê? “Conquistá-lo” com a ameaça da reprovação?
  • Conteúdo dado é conteúdo aprendido – Esse mito é o que mais justifica a omissão e o quessedanismo do mau profissional, que só se dispõe a “dar a matéria”, sem se preocupar com o aprendizado dos alunos.
Resumindo: com essa matéria, a Nova Escola dá um “belo” panorama da visão que a sociedade brasileira tem da escola. Como sempre, o faz com luvas de pelica, da forma mais politicamente correta possível, ou seja, sem incomodar e possivelmente sem produzir mudanças a curto prazo…
Leia aqui mais posts da série A Escola Tabu:

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